Atitude e Crise – Parte II
Quando compreendemos o que se passa connosco, nesta visão muito mais consciente do ser humano e de nós próprios, apercebemo-nos de que a mudança é não só inevitável como urgente! Que ela seja inevitável, é um facto, já que a personalidade é temporária e de uma forma ou de outra ela sucumbirá ante a dor e o tormento que ela própria gera no seu hospedeiro. Quanto ao ser urgente, esse aspecto já depende do livre arbítrio de cada ser humano. Quanto mais tempo precisarmos para decidir optar por nos descobrirmos em consciência, mais depressa nos libertaremos deste ciclo vicioso das crises, das carências, dos desastres e das doenças!
E voltamos nós à ideia inicial de que estamos todos, tragicamente, enredados numa “crise” nacional que parece mostrar-nos um destino aterrador, uma expectativa negra de termos uma vida tranquila e em paz e alegria!
Quando pensamos com a personalidade através das suas muitas deformações psíquicas, o teor desses pensamentos é nefasto, negativo, destabilizador e altamente destruidor. Jamais seremos livres enquanto deixarmos que a nossa vida seja dominada pela personalidade que temos. Estaremos, inconscientemente, a ser manipulados por uma compulsão sistemática à dor, à tragédia, ao sofrimento e à escassez! As causas parecerão todas vir de fora de nós e a sensação de impotência e vítima virão ao de cima, continuamente! Porém, por mais que tentemos remediar esta e esta situação ou desafio que nos surja, a verdade é que, se não actuarmos na raiz do problema, ele aparecerá sobre uma outra forma, disfarçado para não ser percebido como o mesmo.
Como sair deste ciclo vicioso?
A primeira pergunta que se faz é, então:
Queremos abrir mão desse “eu”, isto é, da atracção que ele exerce sobre nós?
Mudar significa mudar por dentro. Abrir mão do apoio e reforço que, sistematicamente, damos aos espaços interiores onde se acantonam as crenças que a personalidade acumulou e recusar o apoio à forte atracção que elas exercem sobre nós, por força do hábito e das rotinas instituídas há muito tempo. São rotinas viciadas nesses padrões limitadores!
Todos queremos mudar! Mas por fora! Queremos que o governo mude, que o marido ou a mulher mude, que os filhos mudem, que o patrão ou chefe mude, que a escassez da conta bancária mude, que os colegas, amigos e conhecidos mudem… todos devem mudar, menos nós!
E quando encontramos alguém que pensa como nós, ADORAMOS! Sentimos que a nossa razão fica fortalecida! Procuramos simpatizantes para a nossa causa, juntamo-nos a criticar, a atacar, a julgar, a levantar autênticos autos de investigação e ataque, para justificarmos a nós e ao mundo que temos razão em nos sentirmos vitimados, maltratados, ofendidos, penalizados, sacrificados e injustiçados! E ficamos satisfeitos, porque alimentamos o nosso sentido de segurança interior, indo buscar aos outros a certeza de que os medos e as raivas, que nos consomem, têm toda a razão para existir e continuar a viver em nós, consumindo-nos a vida e a saúde!
Mas vale a pena! Podemos adoecer, perder o emprego, perder o ou a companheiro(a), ver um amigo afastar-se, perder um filho, mas afinal, nós temos razão! Infelizes mas com razão!
Quanta inconsciência temos ainda de anular para percebermos que merecemos muito mais do que isto! Quanta dor teremos nós de passar para aceitarmos olhar para a raiz do problema? Como gostamos de nos sentir vítimas e coitados! A personalidade do infeliz e do coitado que quase todos temos, de uma maneira ou de outra, explicita ou não, precisa de que reforcemos este padrão. Está constantemente a desenvolver situações para nos apresentar e poder reabastecer-se através de nós!
Inconscientes, continuamos a satisfazer os seus caprichos psíquicos e a usar-nos como reféns que vivem para servir esse “eu” viciado nos seus padrões de medo, culpa e raiva, pequeno, e incapaz de se alinhar com a nossa verdadeira natureza: O Ser.
As crises tanto nacionais como as individuais têm a ver com a manifestação e expressão das crises interiores por que passamos. Tudo começa em nós e volta a nós. Nada que tenha a ver connosco, nasce fora de nós!
E Porquê? Perguntaremos!
Porque por muito que a personalidade domine o nosso psiquismo, o Ser continua vivo, brilhante, disponível e desejoso de se expressar. Somos Seres criadores por natureza, não podemos mudar a essência de que somos feitos! Criamos pelo pensamento, porque a Criação é pensamento! Somos seres cósmicos universais, criadores, livres, ilimitados e poderosos, fazendo uma viagem através de uma dimensão limitada, para conscientemente sair dela e assim passarmos à vivência plena da Liberdade e Sabedoria que reina em todo o cosmos! Somos seres cósmicos! Basta emitir um pensamento e já estamos a exercer a poder criador!
Cada pensamento que emitimos seja através dos padrões mentais da personalidade, seja através da mente livre e perfeita que temos, se manifesta! E volta a nós, que somos o seu mentor! Volta sob a forma de manifestação em que se constituiu!
Quando nos lastimamos sobre os nossos desaires ou sobre aqueles males sociais que parecem monopolizar a atenção de tantas e tantas pessoas, não percebemos que estamos a ser cúmplices no apoio e reforço à manifestação cada vez mais intensa desses problemas, desses medos ou expectativas!
Negar a existência de situações já expressas e manifestadas não é a solução.
Antes pelo contrário. Há que reconhecer esses efeitos desastrosos e tentar sarar a causa! Se tivermos apanhado um resfriado, não vamos, pela certa, provocar mais doença, expondo-nos a correntes de ar ou ao frio, por exemplo! Procuramos a cura!
Quanto aos males da mente, normalmente não reconhecemos a doença e por isso nem percebemos que estamos doentes, muito menos procuramos a cura de algo que não percebemos existir!
O mundo mental que envolve a trama de relacionamentos das personalidades, dos milhões de pequenos “eus” que se apoderaram de nós, está, literalmente, a destruir a humanidade! É urgente curar as maleitas psíquicas que assolam esta humanidade!
Reconhecer que não queremos pactuar com esse tipo de efeitos, gerando mais energia pensante que irá aumentar a probabilidade de que muitos mais desaires aconteçam é a prioridade do ser consciente!
Cada um de nós pode fazer a diferença., saltando fora desse pacto louco de alienação do próprio Ser que vive em cada um de nós! Na presença das lamentações dos outros não temos que pactuar. Os nossos pensamentos podem distanciar-se dessa trama. Podemos enviar pensamentos positivos para eles, enquanto falamos com aqueles que estão mais ”agarrados” a essa inconsciência! Quanto à crise na nossa própria vida, ela representa o caos momentâneo que vive cá dentro!
Autor: Isabel Ferreira










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